Com palco, local, água e luz integralmente custeados pela máquina pública, repasse generoso ao Sindicato Rural inflama as redes sociais e expõe o violento contraste entre a maquiagem dos megaeventos e o abandono dos bairros da periferia.
Enquanto a poeira levanta e o som dos paredões reverbera na histórica Fazenda Boa Esperança, uma tempestade silenciosa e indignada racha as redes sociais do município. A homologação do Termo de Fomento no 01/2026, que transferiu o montante exato de R$ 245.000,00 dos cofres públicos para o Sindicato dos Produtores Rurais organizar o 1o Festival de Piseiro e Forró, transformou-se no mais recente estopim da revolta popular. O desenho técnico da parceria revela contornos que desafiam a lógica da razoabilidade administrativa. Conforme apurado, a Prefeitura de Santa Luzia não se limitou ao repasse financeiro de quase um quarto de milhão de reais. O município assumiu, com estrutura própria, a montagem do palco principal, a cessão do próprio espaço público, o custeio integral de utilidades críticas como água e energia elétrica, além de engajar os canais oficiais do Prefeito na blindagem e divulgação restrita do evento.
RAIO-X DO TERMO DE FOMENTO 01/2026
Processo ADM: 26.16.000000749-0
Entidade Beneficiada: Sindicato dos Produtores
Rurais Aporte Financeiro: R$ 245.000,00
Origem: Emenda Parlamentar Impositiva
Suporte Extra: Palco, infraestrutura e insumos
cedidos integralmente pela Prefeitura.
Diante do "custo zero" operacional de infraestrutura pesada para a entidade parceira, a destinação dos R$ 245 mil para uma grade composta essencialmente por artistas de expressão regional — cujos cachês individuais raramente ultrapassam a barreira do mercado local — levanta questionamentos contundentes. Para analistas, a margem de folga orçamentária caminha perigosamente no limite do sobrepreço, exigindo uma auditoria rigorosa da prestação de contas que se avizinha.
A VOZ DO "PÃO E CIRCO"
A reação digital à propaganda governamental foi imediata e despida de diplomacia. Nas publicações do próprio Prefeito, a retórica festiva foi soterrada por centenas de relatos de colapso nos serviços básicos. A clássica política romana do "panem et circenses" foi explicitamente invocada pelos munícipes.
"Pão e circo... A cidade um caos e o prefeito promovendo eventos. Isso é Santa Luzia!", desabafou uma moradora, ecoando o sentimento de que a festa serve de cortina de fumaça para esconder a deterioração urbana. O contraste mais violento manifestou-se na área da saúde pública. Enquanto o dinheiro público flui sem entraves para garantir o entretenimento de três dias, a fila de procedimentos eletivos e a falta de assistência especializada desenham um cenário de desespero humanitário. Um dos comentários mais contundentes escancara a disparidade de prioridades da gestão: "Estou com hemorragia há dois anos, mais de um ano na fila da laqueadura. Mas tudo bem, porque o que é importante em Santa Luzia é ter piseiros", ironizou outra cidadã.
Na atenção primária, as denúncias apontam o esvaziamento estrutural de unidades de referência, como o Posto Celso Diana, onde mães relatam a absoluta ausência de psicólogos e psiquiatras para o atendimento infantil, mesmo sob demandas urgentes.
O ABANDONO SOB A LAMA E O BURACO
A educação e a infraestrutura urbana completam o tripé da negligência denunciada. Relatos apontam que escolas da rede municipal sofrem com a escassez crônica de insumos básicos de higiene, operando sob o fantasma de salários atrasados do corpo docente. Fora das salas de aula, a geografia de Santa Luzia parece ceder ao abandono físico. Moradores de setores populosos, como o bairro Duquesa 2 e São Cosme, relatam vias públicas intrafegáveis. "Santa Luzia tá afundando com tanto buraco", dispara uma moradora, enquanto motoristas de aplicativos e passageiros descrevem bairros inteiros, a exemplo do Baronesa, onde as ruas permanecem sem qualquer pavimentação, transformando-se em barreiras de lama intransponíveis a cada chuva. O dilema que se impõe em Santa Luzia não reside na negação do direito à cultura ou ao fomento da agricultura familiar. A questão central é a profunda distorção ética de prioridades: em uma cidade onde o asfalto derrete, escolas carecem de sabão e pacientes sangram na fila do SUS, gastar R$ 245 mil em um piseiro blindado pela máquina pública não é apenas um erro de gestão; é uma afronta à dignidade do cidadão luziense.

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