Na política de Santa Luzia, a fidelidade a acordos e o respeito à palavra empenhada deveriam erguer os alicerces de qualquer grupo público sério. No entanto, os episódios recentes que envolvem a trajetória do vereador e atual Presidente da Câmara, Glayson Johnny, revelam o lado pragmático — e frequentemente cruel — dos bastidores do poder municipal.
A atuação do parlamentar sempre foi pautada pelo cumprimento rigoroso de alianças. Convocado para somar forças e transferir seu expressivo apoio na campanha que levou o grupo de Bigodinho ao poder, Glayson cumpriu seu papel com dedicação e lealdade. O compromisso assumido pela base governista previa a reciprocidade e o apoio à manutenção e fortalecimento de suas pautas no legislativo.
A Quebra de Acordo e o Apoio ao Filho de Ilacir Bicalho
Quando chegou o momento da reciprocidade, a conveniência de cúpula falou mais alto. Sem justificativas plausíveis, o grupo executivo voltou as costas ao compromisso firmado com o vereador e direcionou seu apoio para a candidatura do filho do vice-prefeito, Andrei Bicalho.
Mensagens do próprio parlamentar expõem o desapontamento com a manobra: “O que pude contribuir pra Bigodinho chegar no poder eu fiz... e fui leal”, registrou o vereador, destacando que, enquanto ele manteve a fidelidade, o Executivo preferiu priorizar composições familiares. Diante do rompimento, Glayson pontuou que sua postura mudaria: “Dessa vez pensarei na cidade e não apostarei como apostei numa pessoa.”
O "Janelamento" de Feitos e o Mérito Usurpado (O Caso VLI)
A manobra do grupo político não se limitou à articulação para a sucessão na Mesa Diretora da Câmara. Na tentativa de neutralizar sua projeção e enfraquecer seu capital político perante a população luziense, o Executivo articulou o represamento e a tentativa de esvaziamento de pautas cruciais encabeçadas por Glayson.
O caso mais emblemático é a articulação com a VLI (gestora da malha ferroviária). Trata-se de uma conquista fruto do trabalho direto e da liderança do parlamentar, que encabeçou reuniões de negociação e cobrou soluções concretas de mobilidade e infraestrutura para a cidade. Foram 31 milhões de reais em investimentos do Governo Federal através da renovação de FCA e VLI, a maior verba já conquistada por um vereador na cidade.
No entanto, a máquina administrativa buscou sistematicamente "janelar" o parlamentar, tentando assumir os louros e faturar dividendos políticos em cima de uma pauta que teve o mérito exclusivo de sua atuação legislativa.
Bastidores Partidários: O Uso Instrumental no Avante e Republicanos
Os diálogos recentes revelam também a tentativa da cúpula de instrumentalizar a imagem do parlamentar para resolver crises partidárias provocadas por trocas de legenda de aliados — como a saída do grupo do partido Avante rumo ao Republicanos.
Em desabafo, o vereador apontou a manobra em curso: “Estão tentando me usar pra manter o partido Avante com eles, mesmo que eu seja o tapa-buraco do Ilacir com a traição ao Tibé [Luiz Tibé]...”. A intenção do grupo era forçar uma candidatura de Glayson a deputado estadual para garantir dobradinhas de votos e inflar o partido, retendo seu eleitorado mesmo após o descumprimento dos acordos locais.
Apesar de não poder trocar de sigla sob risco de perda de mandato antes da janela partidária, Glayson deixou claro que não aceitará ser figurante no jogo de interesses de terceiros: “Fui leal (...) mas posso fazer desse limão uma limonada.”
A Visão Usurpadora do Poder Local
Após romper promessas, tentar apagar a autoria de conquistas como a da VLI e isolar o parlamentar nas composições futuras, o grupo que comanda o poder em Santa Luzia volta a buscar diálogo com o vereador como se nada tivesse acontecido, esperando apoio incondicional.
A postura adotada escancara uma visão ultrapassada da política local, na qual lideranças comunitárias e parlamentares produtivos são tratados como marionetes descartáveis — úteis em período eleitoral, mas descartados no momento de honrar compromissos. O episódio serve como um alerta à população de Santa Luzia sobre o perfil e o caráter daqueles que atualmente controlam as rédeas do poder na cidade.

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