Inteligência Financeira ou Negócio da Educação? O Milionário Mercado de Livros Didáticos de Augusto Cury
Quando a literatura de autoajuda cruza os meandros da gestão pública, as fronteiras entre o idealismo educacional e o corporativismo empresarial tornam-se perigosamente tênues. Um caso emblemático vem de Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e lança uma sombra incômoda sobre a trajetória de quem hoje se projeta como salvador da pátria: o psiquiatra, escritor e candidato à Presidência da República pelo Avante, Augusto Cury.
Em apenas dois anos (2015 e 2016), a prefeitura mineira — que à época somava cerca de 7,5 mil estudantes na rede municipal — desembolsou expressivos R$ 1,8 milhão para a aquisição de 10,5 mil exemplares do kit “Programa Escola da Inteligência”. O material, fundamentado na chamada "Teoria Multifocal" de Cury, promete desenvolver a saúde emocional e a paz social nas salas de aula. Contudo, os números do Censo Escolar explicitam uma conta matemática incômoda: comprou-se um volume de livros substancialmente maior do que o total de alunos matriculados na cidade.
O contrato garante que o conteúdo é concebido pelo próprio Cury, embora formalmente comercializado por uma editora parceira. O mistério em torno dos contratos públicos ganha contornos ainda mais nebulosos diante do silêncio ensurdecedor dos envolvidos: provocadas a prestar esclarecimentos, tanto a Secretaria Municipal de Educação de Lagoa Santa quanto a assessoria do candidato preferiram o silêncio.
É sob a bandeira da "pacificação" e da inteligência emocional que Augusto Cury iniciou oficialmente sua campanha à Presidência da República, escolhendo justamente o município vizinho de Santa Luzia, também na Grande BH, para dar a largada em sua corrida ao Planalto. O palanque montado na cidade vizinha prega a gestão eficiente e a superação da polarização, mas deixa pelo caminho rastros de perguntas sem resposta. Afinal, cabe o questionamento: como um pretenso líder do Executivo pretende gerir o orçamento de uma nação inteira se negócios ligados à sua metodologia educacional prosperam em pequenos municípios por meio de contratos vultosos, sem a devida transparência perante a sociedade? Quando a inteligência emocional vira uma mercadoria de milhões custeada pelo pagador de impostos, a crítica jornalística não pode se calar.

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